sábado, 16 de janeiro de 2010

Gotas de emoção em chuva de nostalgia

Hoje chorei ao ouvir Drummond. Nunca tinha mexido tanto comigo. E foi assim de repente... "não mais que de repente" [Vinícius de Moraes] ao zapear entre a patética programação de sábado a tarde, que fui enlaçado pelo próprio Carlos Drummond de Andrade narrando essa poesia prostituta e ladra, que me deixou nú por completo e depois fez o que bem queria de mim.

Consolo na Praia
Carlos Drummond de Andrade
Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

8 comentarios:

Natalia Pimenta disse...

Também me emocionou, adoreeei esse poema de Drummond ;)

bárbara f. disse...

Meu querido João.
Quando li que você, aquele que eternamente admirarei, fez um comentário no meu humilde recinto, senti imediatamente que deveria devolver as palavras...
Escrever para mim é sempre um parto, uma dor para tentar tirar de mim sentimentos tão enraizados. E por enquanto, decidi parar.
Mas, acho que logo, na nossa nova empreitada ao longo do ano (espero que tenhamos essa oportunidade), terei, inevitavelmente, que regressar.
Beijos.
Da sua eterna admiradora e amiga de 423, Bárbara Fernandes

Digamos que... disse...

Viva Drummond,
Viva Chico,
e Viva você, querido!!!
Sempre Iluminando as Ideias...
Saudades!

Paty =] disse...

Que liindoooo

Mel. disse...

É incrível a capacidade que alguns poucos têm de emocionar e de se emocionar, é claro, com textos. Estes chamamos, carinhosamente, de mestres!

Bárbara disse...

Eu me lembro deste poema, e lembro te já ter chorado ouvindo alguém o recitando na TV... Não dá pra segurar.

Muito lindo o blog, gostei demais. Estou seguindo e colocarei na minha lista de recomendaçõs. Meus parabéns.

Obrigada pelo comentário no "Barbaridades".

abraços.

M. A. disse...

Interessante isso. Sempre que leio Drummond percebo que minha mão vai instintivamente ao peito como se segurasse delicadamente meu coração, para que ele não desista e vá embora.

Usui de Itamaracá disse...

é incrível como tem poetas com extensas obras e que a gente sabe que metade não faz nem cosquinha no nosso ego.
Mas Drummond, quando vc acha q já viu de tudo... ele manda um simples texto como esse...
Por isso que eu digo, comprar coletâneas de Drummond sempre deixa algo surpreeendente de fora =/