sábado, 22 de setembro de 2012

Anestesia

Quem não conhece, que me tire a radiografia. Aqueles traços disformes. Azul, lilás, sem cor, sem nada. Aquela chapa de plástico que quer contar a história do meu corpo. Não há nada que ele possa falar. É apenas plástico. O corpo está ali, parado. Na cama, deitado em lençóis desconhecidos.
A minha pele coça e o cheiro de éter e das flores ao lado da cama só aumentam a sensação de morte. Necrotério. Mas eles chegam e olham, dóceis, doces, doentes. Parentes, amigos, enfermeiros, médicos. Todos assépticos, devidamente limpos de vida. Só restam choro e indiferença.
 Até que ela passou e parou:
 - Está melhor hoje, meu rapaz?
 O corpo queria sorrir, mas eu só queria ficar em silêncio.
- Vai dar tudo certo, eu sei.
 Os olhos dela eram diferentes. Não tinham pena, nem tinham dor. Aqueles olhos estavam cheios de luz.
 - Obrigado. - respondi.
 Ela parou e continuou me olhando. Deixou os panos, vassouras e esfregões, seus companheiros diários, para olhar para mim.
 - Eu precisava falar, menino. Precisava dizer isso para você, porque eu sei que vai ficar tudo bem. - a voz dela era antiga, apesar das poucas rugas.
 - Quem é você?
 - Ninguém.
 - Quem é você? 
- Olhe aqui no meu crachá. - disse, estendendo a identificação pendurada no pescoço.
 Olhei para o lado. Não queria olhar a foto. Queria os olhos.
 - Não quero saber seu nome. Se veio me dar uma boa notícia, diga, pelo menos, quem é você.
 Ela olhou como se, finalmente, entendesse. Pegou os seus companheiros diários de ofício, virou as costas e disse, ao fechar a porta:
 - Eu sou sensação.
 Enquanto ela saia, uma horda de médicos entrou na sala. Um deles falou comigo, enquanto trocava o meu soro.
 - Você vai se sentir sonolento.
 Vai tudo dar certo. Ninguém me olhava. Anestesia.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

The few


Um presente que eu roubei do blog da Mariana.

Morning is due to all -
To some - the Night -
To an imperial few -
The Auroral light.

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.78-79.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

ardere I

Na prensa
da foda
Eu faço
mulher

Na pressa
da foda
Eu pego
mulher

Na prensa 
do pau
Eu viro
mulher