Que benefícios nos proporcionam os novos livros! Gostaria que cada dia me caíssem do céu, a cantaros, os livros que exprimem a juventude das imagens. Esse desejo é natural. Esse prodigio fácil. Pois lá em cima no, céu, não será o paraíso uma imensa biblioteca?
Mas não basta receber, é preciso acolher. É preciso, dizem em uníssono o pedagogo e a dieteticista, "assimilar". Para isso, somos aconselhados a não ler com demasiada rapidez e a cuidar para não engolir trechos excessivamente grandes. Dividam, dizem-nos, cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas darem necessárias para melhor resolvê-las. Sim, mastiguem bem, bebam em pequenos goles, saboreiem verso por verso os poemas. Todos esses preceitos são belos e bons. Mas um princípio os comanda. Antes de mais nada, é necessário um bom desejo de comer de beber de ler. É preciso desejar ler muito, ler mais, ler sempre.
Assim já de manhã, diante dos livros acumulados sobre a mesa, faço ao deus da leitura a minha prece de leitor voraz: "A fome nossa de cada dia nos dai hoje..." " Gaston Bachelard. A Poética do Devaneio. Tradução de Antonio de Pádua Danesi.
Exaltar o verde-louro latino. A conquista de heróis. As medalhas do passado.. Isso é falar de pátria?
O país que não para de crescer. O ufanismo nacionalista. A defesa das nossas terras. Isso é ser patriota?
Afinal, que heróis? Temos por acaso heróis nessa pátria? Os Pedros príncipes? Não. Os marechais e generais que a mão de ferro subjugaram o país? Não
E que medalhas do passado? A fome e a pobreza histórica? O preconceito racial? A sucessão de injustiças a que os cidadãos passam?
E enfim, que terras? Será o Brasil a nossa terra? Essa terra que, em mãos de poucos, perde seu valor social e serve apenas ao Rei Lucro? Essa terra que é tomada de nossa gente por grande latifundiários?
Que Brasil?
Que pátria?
Não viemos aqui homenagear essa pátria.
Não viemos condecorá-la com Honrarias de araque.
Falaremos de outra pátria.
A pátria do samba.
A pátria dos morros.
A pátria do sertanejo.
O Brasil amazônico.
O Brasil de bombachas.
Pra nós essa é a pátria que merece homenagens. É o nosso Brasil, que mesmo com inúmeros problemas e adversidades é o lugar feito especialmente pra nós.
É o lugar onde podemos chamar de lar. É onde nos sentimos acolhidos pelos sorrisos abertos e pelo abraço apertado.
Não queremos exaltar o Brasil pela sua grandeza continental ou expressão econômica.
Mas sim pela grandeza de seu povo. Pela determinação da nossa gente. Pela vibração nos estádios de futebol. Pela felicidade em época de carnaval. E fora dela. Pela alegria em nossas praias, nas nossas cidades, em nossas favelas.
Não ao Brasil-Estado. Não ao Brasil de Vargas, dos generais, ou ao país de Lula. Mas sim exaltamos aos verdadeiros filhos desse país. Filhos que tem sim uma mãe gentil, mas que muitas vezes maltratada por bastardos.
Não ao Brasil-empresa, que mantém seu PIB crescendo em detrimento de milhares de famintos. Mas sim ao grande e diverso prato de comida que é o nosso país. Ao colorido dos pássaros. Ao colorido da criança. Ao colorido das festas de frevo.
Não ao Brasil-cartão-postal do Cristo Redentor e das praias nordestinas. Mas sim ao país que alcança sua redenção nos corações pulsantes do seu povo.
E enfim, não ao Brasil-“pacífico e ordeiro”. Não ao povo que se cala. Mas sim a multidão que vai pra rua. Que protesta no twitter. Que está cansada dos monstros profanos da política brasileira.
Para além de um discurso clichê, falar sobre nossa pátria é saudar nossos compatriotas.
Porque o país com que sonhamos é aquele que construímos.
Salve o futuro do Brasil, que hoje leva suas novas asas para casa.
Salve um Brasil além das palmeiras e dos sabiás. Além das aves que gorjeiam.
Porque hoje não gorjeiam apenas aves. Hoje quem grita somos nós.
Hoje não voam apenas sabiás. Mas sonhos de uma juventude com fome de atitudes.
Hoje não apenas palmeiras enfeitam nossa paisagem. Um multicolorido extravasa pelas fronteiras do país.
Essa antropofagia tupiniquim.
Esse lugar definido pela indefinição.
Esse lugar que é um não-lugar
Lugar de todas as culturas que ao mesmo tempo forja sua própria peculiaridade.
E são essas particularidades que fazem daqui o nosso lugar.
Discurso em Homenagem à Pátria da minha colação de grau no Pedro II =) . O texto leva a autoria de Julia Nevares, Tainá Lopes e a minha né... João Victor Barbosa
Minha casa não tem janela. Invés de tijolos, pedras. No lugar de luz, escuridão. Aqui o ar é rarefeito. É preciso respirar fundo para enfrentar as terríveis noites. Terríveis e intermináveis. Só se ouvem o estalo do pingo d’água na pedra gelada, gemidos, ecos, vozes sem dono. Na minha casa só há uma porta. A porta de saída. As astes de aço refletidas pela chuva. Os vidros. Espelhos para o mundo. Seria aquilo mesmo real? As cores. Amarelo. Vermelho. Cor púrpura que me paralisa. Quero um vermelho que não seja pecado. Q uero um vermelho velado. Vermelho que não seja sangue. São só imagens. Apenas sonhos. Só conheço um vermelho. Aquele que corre nas veias. De resto tudo é opaco. Ainda que não seja verdade, quero atravessar o portal. Ver a mentira. Ver o oculto. Tocar o impalpável. Respirar a atmosfera dos pássaros. As pedras impendem minha loucura. Uma voz de acusação. Alguém mais aqui? Claro que não. É apenas meu medo querendo me podar. Detesto minha prudência. O sol tímido reflete no vitral da minha salvação. É só abrir. Alguns passos. As mãos frias e molhadas pela ansiedade tocam a fechadura. Mais uma vez as pedras sussurram. Será um aviso? As pedras não falam, não seja fraco. A porta se abre sozinha (ou terão sido minhas mãos apressadas?) Meu corpo não me ouve. Apenas escuto o riso das folhas. Elas me chamam. Dizem meu nome, posso escutar. Os pés vacilam, o vento me empurra. Adeus casa. Adeus pedras. Adeus cinza opaco. O corpo sente o vento contra si. Já não se meche. Olhos abertos para os últimos segundos. Um pensamento de relance: “Terá valido a pena?!” Apenas um milésimo de susto. Não quero morrer sem antes ver os pássaros. Sentir o aroma das frutas. O vento contra o rosto. O vermelho que é verdade. O vermelho das maçãs. Não quero morrer com cinza. Quero morte em vermelho. Sangue vivo molhado pela chuva. Reverenciado pelo Sol. Não vou morrer antes do primeiro suspiro. Pelo menos enquanto caio, vejo um chão que não é pedra. E que o homem ao pó da terra retorne.