terça-feira, 19 de novembro de 2013

Dona velhinha

Escrevo esta cartinha
Pra uma dona velhinha

Recita Castro Alves
E as belezas do Mato Grosso
Emenda o laço de fita
Com palavra, rima e oração

Na frente da quadrilha
Ele desvelhinha

É clown, é caroço, é coro
Tem na velhinha um espírito em movimento
Uma tela não é nela, na velhinha, que é tempo
Tem nessa velha um doce de canela
Nas memórias rugas
No fio lisura
Em Ceci, em Clari, em Drummond

Sentada no banco
Ela desvelhinha

Tem uma velhinha
Que conta historinha
Que conta piadinha
Que fala da vizinha
Que enche a cozinha
De coisinha, canetinha, palavrinha, de inhas, inhos, inas, in braço

Chorando no cantinho
Ela revelalinha

Nasci sem nada, nada saber
Hoje não sei só ler
Hoje sei rir
Sei fingir
Sei contar

Nos versinhos da velhinha
Existe eu
Existe o berço
Existe a árvore
E o balanço
Existe a tinta
E a fantasia
Existe Pedro Álvares Cabral
Existe anjo, existe sim
Existe também perversão
Gargalhada inha, zinha, minha, fininha

Escrevo esta cartinha
De fora do cerco da cidade
Do seu netinho, velhinha
Que é saudade
Saudadinha.

Paga

Vem paga de cult
Diz que dá pra Godard
Fala que fode Foucault
Mas não soletra sozinho o sol que sobe a letra
a rima parnasiana
desse clipe
dessa onda
dessa vibe
super simples
super super
superfular supersugar

sábado, 22 de setembro de 2012

Anestesia

Quem não conhece, que me tire a radiografia. Aqueles traços disformes. Azul, lilás, sem cor, sem nada. Aquela chapa de plástico que quer contar a história do meu corpo. Não há nada que ele possa falar. É apenas plástico. O corpo está ali, parado. Na cama, deitado em lençóis desconhecidos.
A minha pele coça e o cheiro de éter e das flores ao lado da cama só aumentam a sensação de morte. Necrotério. Mas eles chegam e olham, dóceis, doces, doentes. Parentes, amigos, enfermeiros, médicos. Todos assépticos, devidamente limpos de vida. Só restam choro e indiferença.
 Até que ela passou e parou:
 - Está melhor hoje, meu rapaz?
 O corpo queria sorrir, mas eu só queria ficar em silêncio.
- Vai dar tudo certo, eu sei.
 Os olhos dela eram diferentes. Não tinham pena, nem tinham dor. Aqueles olhos estavam cheios de luz.
 - Obrigado. - respondi.
 Ela parou e continuou me olhando. Deixou os panos, vassouras e esfregões, seus companheiros diários, para olhar para mim.
 - Eu precisava falar, menino. Precisava dizer isso para você, porque eu sei que vai ficar tudo bem. - a voz dela era antiga, apesar das poucas rugas.
 - Quem é você?
 - Ninguém.
 - Quem é você? 
- Olhe aqui no meu crachá. - disse, estendendo a identificação pendurada no pescoço.
 Olhei para o lado. Não queria olhar a foto. Queria os olhos.
 - Não quero saber seu nome. Se veio me dar uma boa notícia, diga, pelo menos, quem é você.
 Ela olhou como se, finalmente, entendesse. Pegou os seus companheiros diários de ofício, virou as costas e disse, ao fechar a porta:
 - Eu sou sensação.
 Enquanto ela saia, uma horda de médicos entrou na sala. Um deles falou comigo, enquanto trocava o meu soro.
 - Você vai se sentir sonolento.
 Vai tudo dar certo. Ninguém me olhava. Anestesia.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

The few


Um presente que eu roubei do blog da Mariana.

Morning is due to all -
To some - the Night -
To an imperial few -
The Auroral light.

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.78-79.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

ardere I

Na prensa
da foda
Eu faço
mulher

Na pressa
da foda
Eu pego
mulher

Na prensa 
do pau
Eu viro
mulher

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

São Paulo


As mucosas secas, a boca seca. Três garrafas de água em poucas horas. Sinto falta da umidade carioca. A planície, o Vale do Anhangabaú. Os morros e a praia não fazem assim tanta saudade. A vista plana é uma das belezas dessa cidade. Olho para o horizonte e vejo as montanhas de concreto e espelho. A beleza das vidraças e de seu trânsito frenético.
As tropas apostas invadem o vagão do metrô. Algumas leis da física ignoradas e umas pisadas no pé, já estou no meu destino. A capital paulista e suas funcionalidades. Organização e otimização. Menos lixo e, inegavelmente, menos cigarro. A fumaça aqui é outra.
Os rostos redondos e as cabeças chatas. Os olhos puxados e o português quase ininteligível. Os modelóides antenados e, por vezes, pop-cults. Envolvidos em seus cachecóis e óculos tamanho extra-grande, esses seres vagam pela cidade com seu bafo blasé e olhos atraentes e sedutores. Não fazem falta as havaianas e camisetas.
Entre o asfalto e o shopping, a pastelaria e a marginal, circulo no ar seco do inverno dessa cidade. Mais uma garrafa de água. O Tietê e o Pinheiros só revelam seu potencial hídrico em tragédias. Nada não acontece. A sensação é a de estar no acontecimento. O fim está em si mesmo.
Agora, de madrugada, a algumas horas do Rio, a atmosfera já permite ao meu nariz escorrer. O último gole de água, o dia nasceu, o Cristo voltou.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Liberdade é ser feliz

Foto: Bia Petri

Onde o cool é ser cafona, lá que o blues se torna funk, é lá que a pena viram teclas, e a imagem, espectro.