quinta-feira, 15 de abril de 2010

Receita para o artista

Um doce devaneio na aula de Comunicação e Artes.

Que benefícios nos proporcionam os novos livros! Gostaria que cada dia me caíssem do céu, a cantaros, os livros que exprimem a juventude das imagens. Esse desejo é natural. Esse prodigio fácil. Pois lá em cima no, céu, não será o paraíso uma imensa biblioteca?
Mas não basta receber, é preciso acolher. É preciso, dizem em uníssono o pedagogo e a dieteticista, "assimilar". Para isso, somos aconselhados a não ler com demasiada rapidez e a cuidar para não engolir trechos excessivamente grandes. Dividam, dizem-nos, cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas darem necessárias para melhor resolvê-las. Sim, mastiguem bem, bebam em pequenos goles, saboreiem verso por verso os poemas. Todos esses preceitos são belos e bons. Mas um princípio os comanda. Antes de mais nada, é necessário um bom desejo de comer de beber de ler. É preciso desejar ler muito, ler mais, ler sempre.
Assim já de manhã, diante dos livros acumulados sobre a mesa, faço ao deus da leitura a minha prece de leitor voraz: "A fome nossa de cada dia nos dai hoje..." "
Gaston Bachelard. A Poética do Devaneio. Tradução de Antonio de Pádua Danesi.

domingo, 11 de abril de 2010

A tragédia e o show

Novas caras entraram na programação diária da TV brasileira. As emissoras agora transmitem, quase que a todo o momento, rostos que vão ficando conhecidos do espectador. Desde a tragédia que abate a região metropolitana do Rio de Janeiro, toda a grade televisiva segue um novo Norte. A dor, a tristeza, as lágrimas, a indignação. Repórteres claramente abalados. A voz, antes tão firme, agora embargada pelo choro que teima em sair. Coberturas para todos os gostos e em todos os horários. É preciso denunciar e informar, diz o senso jornalístico.
De manhã, os costumeiros "Enlatados Culinários" abrem espaço para as lágrimas. Não há mais quem queira sorrir. O "Bom Dia" soa com pesar. Os jornais se alongam por toda a manhã com seus plantões de urgência. As ruas alagadas, as casas destruídas. Durante a tarde e pelos próximos dias, mais do que notícias, surgem histórias cheias do drama novelesco que atrai o grande público brasileiro. 
Apesar da imensa quantidade de pessoas afetadas dolorosamente pelas enchentes, alguns "personagens" começaram a se tornar familiares a quem acompanha os noticiários. As pessoas exploradas. As histórias desenhadas. Roteiros escritos por jornalistas. A mãe que perdeu o filho de 8 anos. A senhora salva entre os escombros. O desespero de um pai. Símbolos criados pela mídia na construção do dramalhão peculiar ao gosto nacional. A pauta girou em torno das caras, do choro. Os rostos que se repetiam em todos as emissoras, criando uma sensação de Propaganda Política Obrigatória, iam se fixando e comovendo o espectador. Criava-se o espetáculo da tragédia.
Um homem aos pulos, grita por justiça. Ele se apresenta formalmente vestido, o que contrasta com a forma sensacionalista como conduz a atração. O entretenimento atinge o pico de audiência quando enfim o repórter (como assim ele se autodenomina) encontra uma mãe inconsolável pela perda dos filhos. No canal seguinte, cenas repetidas. Óbvio que o melhor seria guardado para o programa de domingo. A notícia só é valiosa quando a ela se atrelam os pontos no IBOPE e consequentemente os lucros.
Muito além de ajuda humanitária e solidariedade da população, os morros do Rio, assim como tantas outras comunidades, clamam por atenção. O poder público não pode mais ignorá-los. Mais que urbanização e saneamento, eles pedem abraços. Mais que audiência e lágrimas do telespectador, esse povo quer respeito e dignidade. Querem estrelar outra Super Produção Nacional que conte com menos morte e mais sorrisos. 
10.abril.2010. Morro do Bumba. UOL Fotos. Felipe Dana/AP

sábado, 3 de abril de 2010

Enjoo

A barriga parecia ter vida própria. As contrações dimininuíram progressivamente seus intrervalos até atingirem a uniformidade. Uma única dor. O peito já não tinha ar. Os músculos contraídos enquanto o suor descia. A mulher passava e fingia não ver. "Essa menina aí fingindo que está com dor só pra não me ajudar..." - pensava. O ar escapava dos pulmões tão intensamente quanto da panela de pressão. O tique-taque quase mudo assumia níveis ensurdecedores para Ela. Bem que a mãe tinha avisado sobre o chocolate. Branco e preto envolvidos no crime. A culpa era dos pedaços de caramelo. Correu para o banheiro. Há muito tempo que não vomitava. Da última vez ainda não usava sutiã e tinha a chupeta como objeto de adoração. Era mesmo o chocolate. E junto dele os restos do macarrão do jantar. Todo o banheiro estava sujo. Agora Ela ia ter que ajudar na limpeza.
Saiu do banheiro. A mãe passou e olhou a bagunça. Bradou algumas palavras de reprovação que Ela nãe escutou. Deu à mãe a solução para o delito: voltou ao banheiro com vassoura, um pedaço de pano velho e um vidro com um líquido azul.
O estômago ainda doía, mas Ela bravamente resistia com esfrogões no chão e mordidas no lábio. Mas não se arrependia. Afinal, os doces eram presentes dEle. Ela parou um instante para respirar. Já não aguentava mais as contrações. Sentou no chão molhado e começou a suspirar olhando para o céu azul turquesa entre a janela apertada do banheiro. "Ah, Ele é tão atencioso, tão carinhoso..." - sussurava baixinho. A causa do enjoo era a mesma do suspiro.
- Menina! Está parada porque, hein?! Não viu que ainda está sujo! - gritava a mãe.
Ela fez uma careta secreta aos olhos da mãe e voltou ao trabalho.
- Já até sei. Deve estar pensando naquele menino. Já disse pra você tomar cuidado, menina. Esses meninos são terríveis. Eu já fui adolescente... Meninos dessa idade não querem nada sério. Toma cuidado menina.
Foi aí que Ela teve um susto. Um susto que interrompeu as dores por um instante. As palavras da mãe já eram conhecidas por ela. Mas dessa vez, as circunstâncias eram outras. O enjoo. Ela, então, lembrou do rosto dEle naquela noite. Ele a transmitia segurança e suas palavras começaram a resoar na mente dEla: "Você não vai engravidar... Eu sei o que estou fazendo." Bem que a mãe tinha avisado sobre o menino. Mas não tinha avisado sobre a camisinha. Ele e Ela envolvidos. A culpa era da imprudência? Do impulso da juventude? O fato era que a prova estava ali na frente dela, gosmenta e suja, escorrendo entre os ladrilhos do banheiro.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Março

Março acabou. E com ele toda a transição.
Março estava estranhamente longo nesse ano de 2010. Serão os astros? A posição da Saturno? Acho que tem mais a ver com a quantidade de eventos no mundo, no Brasil e na minha pequena grande vida. Muito além de Nardonis, vestibulares e (infelizmente) BBB's, março foi o mês de lavar a alma. Lavar com o resto da chuva. Lavar com as águas de Tom. As pancadas das tardes de verão que dão espaço ao céu nublado e ao clima seco. A verdade dos dias quentes dá lugar as mentiras de 1° de abril. Dias falsos esses de outono. Sem frio, sem calor, sem nada.

Os devidos créditos para : flickr.com/photos/meninodosolhos1/106258103/